terça-feira, 6 de junho de 2017

Programa de salvaguarda do azulejo - Apêlo aos PCM Porto e Gaia



Ex.mo. Sr. Presidente da Câmara Municipal do Porto
Dr. Rui Moreira
Ex.mo Sr. Presidente da Câmara Municipal de Gaia
Doutor Eduardo Vítor Rodrigues

CC: AMP, AMG, e Media

Decorrido um mês sobre as comemorações do 1º Dia Nacional do Azulejo e 14 anos (!) sobre o abaixo-assinado/manifesto (em anexo) pela preservação da Fábrica de Cerâmica das Devesas, cujo processo de classificação remonta a meados da década de 1980, com os resultados infrutíferos, e dramáticos, por demais conhecidos;
Verificando-se que, na realidade, no Porto e em Gaia, quase tudo continua por fazer no que toca à inventariação, estudo, monitorização, salvaguarda, valorização e divulgação do património azulejar e do património industrial associado, pois só algumas pequenas partes do território dos dois municípios foram objecto de inventariação sumária dos azulejos existentes, mas sem contemplar os demais artefactos cerâmicos complementares e sem qualquer tipo de estudo associado, estratégia de salvaguarda, ou sequer uma monitorização - sendo que muito do que foi inventariado já não existe e, nos últimos anos, diversas antigas fábricas de cerâmica foram até arrasadas, parcial (Devesas, Carvalhinho - instalações de Gaia), ou totalmente (Cavaco, Monte Cavaco, Fojo), estando todas as poucas que ainda restam ao abandono ou em ruína acelerada (Devesas, Santo António do Vale da Piedade, Senhor d'Além, Carvalhinho - instalações do Porto, Massarelos - fornos junto à Ponte Maria Pia);
Verificando-se que, no caso do Município do Porto, o banco de materiais, ainda que sendo um projecto meritório, não resolve minimamente o problema, não só porque a azulejaria só faz verdadeiramente sentido no seu suporte arquitectónico, mas também por não existir uma estratégia pró-activa municipal de defesa do seu património azulejar, nomeadamente do de fachada, que é aquele mais visível;
Sendo evidente que a azulejaria de fachada é uma das marcas distintivas de "Portugalidade" mais fortes e mais reconhecidas a nível internacional, reunindo indelevelmente os municípios do Porto e de Gaia - aquele por ter sido a principal montra e pólo exportador desse tipo de azulejaria, que marcou uma época e que se destacou face à tradição da azulejaria lisboeta; e este por ter sido o principal núcleo de produção de azulejos e de outros ornatos cerâmicos para edifícios, alguns dos quais são já hoje muito raros;
Constatando-se que - em grande medida por inacção - a situação da típica azulejaria do Porto/Gaia é grave, como se mostra pelos exemplos em anexo, que apenas ilustram uma diminuta parte dos problemas existentes: a Capela das Almas; a Igreja dos Congregados; a Igreja da Trindade - recentemente objecto de abertura de procedimento de classificação como CIP; a estátua de "Portucale" em terracota de modelo de Teixeira Lopes Pai que até há pouco tempo ainda existia em Miragaia; o painel do "Pirotechnico" (único do género no país) que existia em Coimbrões; etc., etc.;
E, por último, sendo claro que o empobrecimento das cidades do Porto e Gaia em termos de azulejaria e de outros ornatos cerâmicos complementares - quer por furto, quer por incúria, quer por retirada aquando de obras, quer por substituição por réplicas (ainda por cima de má qualidade), quando os originais existem e podem ser recuperados - é uma realidade que importa combater e estancar;
Somos a enviar a VV. Ex.as um apelo para que abracem a causa do Azulejo do Porto/Gaia como "cidades de azulejo", como uma marca própria, factor de desenvolvimento cultural, social e turístico, e, nesse sentido, façam aprovar em sede de executivo, preferivelmente em articulação intermunicipal, um programa de investigação e salvaguarda do Azulejo do Porto/Gaia, o qual contemple:
1. A inventariação exaustiva e bem documentada (fotográfica, histórica, estado de conservação, etc.), em sede de Revisão do Plano Director Municipal, da azulejaria de fachada e também de interiores, em edifícios públicos e privados, no espaço público ou privado.
2. A alteração da regulamentação camarária relativamente ao licenciamento urbanístico, através de um conjunto de normas de salvaguarda para os imóveis objecto de projecto de alteração, com vista à consolidação, restauro e/ou recolocação de azulejos, com técnicas e argamassas adequadas, e, apenas quando estritamente necessário, definindo os moldes da sua eventual remoção para depósito camarário.
3. O reforço da participação do Porto e de Gaia no projecto "S.O.S. Azulejo".
4. O reforço da colaboração com os centros de investigação universitários onde a azulejaria é tema de pesquisa, assim como com a Direcção Regional de Cultura-Norte, e ainda com associações idóneas que se mostrem activamente interessadas na defesa deste Património comum que é o Azulejo.
5. A atribuição da classificação bem/monumento/conjunto de Interesse Municipal às fachadas, painéis, e outros exemplos de ornamentação cerâmica complementar que assim o mereçam, a partir dos resultados da inventariação referida no ponto 1.
Juntamos ainda esboço-resumo do que poderá ser esse plano de salvaguarda do Azulejo de Porto e Gaia.
Ficamos à disposição de VV. Ex.as;
Melhores cumprimentos

David Afonso, Francisco Queiroz, Francisco Sousa Rio, Nuno Quental, Virgílio Marques
​Pelo Fórum Cidadania Prt
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Foto do antes e do depois - painel do "Pirotechnico"


Igreja da Trindade


Igreja dos Congregados


Largo dos Loios - réplicas em edifício intervencionado no âmbito do projecto dito "das Cardosas"


Miragaia - estátua do "Portucale" em 2017 e como estava em 2016


Rua da Bainharia: réplicas em lotes contíguos


Rua dos Caldeireiros: réplicas truncam painel publicitário


Rua Tomás Gonzaga: um dos poucos edifícios na rua onde ainda há azulejos originais (os pouquíssimos que sobraram nesta fachada)



Estado actual da Capela das Almas (fotos de Fernando Pacheco publicadas no Facebook)
























4 comentários:

  1. As fotografias são apenas alguns exemplos, de muitíssimos que poderiam ser dados.

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  2. Apoio a vossa iniciativa e disponho-me a colaborar convosco para proteger o património azulejar de Vila Nova de Gaia e do Porto.

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  3. Na qualidade de cidadã e natural de Vila Nova de Gaia, subscrevo inteiramente a vossa petição e demonstro a minha indignação pelo estado atual do património aqui exemplificado. Agradeço a todos os intervenientes diretos, que em nome de todos nós, tem dado voz aos pedidos de salvaguarda, petições e inventariação com fotos juntos das instituições competentes com os recursos necessários e poder de decisão. Cabe a estes últimos, como a legitimidade que detêm zelar pelo património e história de todo o povo português

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